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                                            Salomão Rovedo 
               

         Sambarrancho do Bar Jangadeiro

                                         I
Outono dos mundos feridos, monopólio das mágoas, subsolo dos invernos,              
sob o sovaco do Cristo Redentor, nas faldas da Praça General Osório,
principelhos fúfios namoram nas areias da Ipanema macanuda.
                                       ***
Folhas secas, amendoeiras, trilhas retilíneas, são molduras maldizentes das
favelas, naco saboroso de ovação, pedacinho de apoteose, palco de areias
pardas e águas verdes, onde naufragam galeões e paquetes, aonde a velha
jangada vinda do Ceará foi notícia no O Cruzeiro, atracou heroicamente por
mares nunca dantes navegados antes de regressar à praia de Iracema!
                                       ***
Sótão da primavera onde velhos marinheiros, transidos e melancólicos pelas
ondas do mar, antecipam a morte no beliche, trupicam nos destroços
carcomidos pela ferrugem.
                                       ***
Ali se pode ainda ser livre, mentir e desmentir, insultar e ser xingado, amar
plenamente e plenamente amar. Alex repousa suas belas irresponsabilidades.
                                       ***
Mucama de pele branca, sereia de rio, animal de rio, uiara de rio. Fero olhar
manso das mais amantes. Sirena maquiada de sardas feiticeiras, flecha as
tardes dos corações outono.
                                       ***
Caso de eterno zumbaiar, mágica mancebia, impecável mundícia sentimental,
pureza d’alma – diria – para ser louvada a cantigas e mil loas.



               II
   Como quem pede amor,
  Vibra mais uma canção,
    Reflexos de mansidão
 Dos olhos vidros de Alex.
   – Verdes olhos vítreos.
   O rito do lábio em riste
  Manchas de iogurte diet
    Eis a estética de Alex
    Vestida de sol poente.
  – Despida das ipanemas.
Alex é impossível não amar!
  Água salobra das lagoas
Descanso de fim de jornada
Os ombros varando os céus.
 – Ombros do céu e do mar.
  Não duvido desses olhos
  Cheios de eterna frescura
  Das heranças de feitiços
 Não duvido desses vícios.
– Assoma brandura e calma.
  Não duvido desses beijos
Não, Alex, indivisível abraço
Não divido o carinho atento
 Emboscado em teu regaço.
              ***
   – Tanta leveza – Alex...
                                         III
Nas paredes do Bar Jangadeiro as marcas sensitivas estão registradas. Nelas se
desenhou tantos grafitos das almas, quanto as pegadas do mesmo chão.
                                        ***
Em cada traço gotas de sede e fome – fome e sede de liberdade, dias de cicios,
cochichos sussurros, mistérios. Signos secretos que marcam e desmarcam
vidas, onde se pede o vício, o verso, o pó.
                                        ***
Os espelhos do Bar Jangadeiro refletem o caos da copa, copos de chope e som
de fritura, ruídos de talheres, sons da cozinha, cheiro do banheiro sem grafites,
desenhos, palavrões, desejos escusos, insuspeitos, palmas pra revolução.
                                        ***
Jaguar sente falta dos amigos. Estão em outra. Numa boa. Ou numa de pior.
Por isso vive execrando sombras o inventor do feijão garni.
                                        ***
Lembra Vinícius exilado da própria Ipanema e do próprio Leblon onde jamais
foi nem fez parceria com Toquinho?
                                        ***
É quando o chope vence o corpo que misteriosas visagens, miragens, almas
desérticas, assombram a vista e tornam a alma transparente.
                                        ***
Parece um mar tão sereno, mas é nele que navegam tranqüilos os blocos de
icebergs assassinos, as balas perdidas invisíveis.
                                        ***
A gente se vê no Bar Jangadeiro!
             IV
Olha estranho companheiro
   aquele pássaro doente
      – ele vai morrer.
     Vê distinto amigo
   aquele menino de rua
      – ele vai morrer.
    Mira preclaro colega
pombos sobrevoam a praça
     – eles vão morrer.
    Nota, solitário amigo
  a praia só e suja de lixo
      – ela vai morrer.
     Até a mata amiga
  tocos torcidos e negros
      – ela vai morrer.
   Cuidado companheiro
   aquele areal já foi rico
      – ele vai morrer.
     E o sol o deus-sol
    amigo inextinguível
      – ele vai morrer.
   Sol amigo de Ipanema
 não explode nem se deita
      – ele vai morrer.
   Até a Pedra da Gávea
 aventuras o sol percorrerá
      – ele vai morrer.
                                       V
De um lado o morro, tema de civilizações mui antigas, de muito batuque e
muita cantiga. Do outro lado o mar de areias e sereias. Sem passado, sem
futuro – o mar de hoje. Praias todo dia invadidas e banhadas. Atracadouro de
infâncias. Cemitério de infâmias. Derrotas suicidas que derribam ideais das
sociedades puritanas. No olho do furacão o Bar Jangadeiro – taba antiga na
história da história. Távolas perpendiculares, freqüentadores verticais
tropeçando no subjetivismo alcoólico – matéria para iniciados.
Aonde atracou o jangadeiro
viajante do ceará
encarando todos os demônios
do mar?
– Em Ipacema.
Vem a areia de Iracema
com a água de Ipanema
aventura, ousadia e amor
misturar?
– Em Ipacema.
Aonde herói vencedor
sertanejo do mar deixou
a vida largada e tentou
voltar?
– Em Ipacema.
Foi assim que nasceu a legenda e fama do lugar perto da areia da praia de
Ipanema e esse nome – Bar Jangadeiro – ninguém mais pôde esquecer – era
Ipacema!
Ali, com mureta e tudo, entre a praia e o morro, está fundeada a República das
Alemoas Unificadas, onde se vive tecendo teias de vidas, intrigando o tempo,
buscando sabe-se quantas e quais liberdades, confluências históricas,
identidade do passado que não quer passar, nem fugir das zonas sombrosas da
memória.
                                       VI
Tamanhas implosões, nenhuma definição de fecundidade entre homens,
mulheres, sujeitos, amigos, parias do espaço e do tempo aqui agora.
Fumaça, estampido, muita gritaria, a girândola ensurdecedora anuncia: é
Carnaval!
O bloco Simpatia é quase amor ensaia e avisa que vai sair: é Carnaval!
Campanários de triângulos, afoxés, tamborins: é Carnaval!
Ouro revestido, camisas de mortiço colorido, suor de petróleo: é Carnaval!
O surdo de marcação rodeia a voz declamadora: é Carnaval!
Camisetas de Bali, chapéus de Búzios, lenços de Java: é Carnaval!
O samba corre rasgado. O carro de som ilumina os corpos descamisados: é
Carnaval!
Shorts do Hawaii, mulatas de Madureira e algures: é Carnaval!
Não importa, nada importa: é Carnaval!
Os cartazes de alforria e liberdade cospem mil palavras roxas de emoção.
Corpos lilases e amarelos disparam cadenciados no rumo da beira do mar.
Véus de nuvens noivam no céu azul translúcido, o sol pepita dourada queima
os corpos e segue rumando cada vez mais encarnado lá pelas bandas da Pedra
da Gávea.
Saindo do Bar Jangadeiro nesse palco iluminado o Simpatia é quase amor,
abençoado por Deus Redentor, vai destilar o carnaval de Ipanema, até que a
tarde vira noite toscanejando pra lá das fronteiras com o Leblon.
Nada faz perder a animação deslumbrada e sem exemplo.
Vai o bloco coleando as pernas pelas ruas, infatigável, trazendo de volta ao
Bar Jangadeiro as fêmeas cada vez mais nuas na desordem dos prazeres
carnavais.
                                      VII
A turista argentina semi-desmaiada, corpo em fadigas descorado, pele agora
encarnadinha (desapiedado sol!), pés castigados pelo asfalto quente, bolhas de
samba, atraca no Bar Jangadeiro, bem ali, à espera das pizzas de cetim e alho
convidando o paladar.
                                     ***
Garganta ávida, sequiosa como um deserto das mil e uma noites, a turista
avança incontida rumo ao chope dourado que corre quilômetros de serpentina
para finalmente assomar na tulipa transbordando espuma cadente na bandeja,
descobrindo segredos e ardis do chope bem tirado.
São amigos que se encontram pra falar de outras mulheres,
Falam de muitas mulheres os amigos que se encontram.
São amigos que descontam quando falam de mulheres,
E falando de outras mulheres muitos amigos descontam.
São amigos que se encontram pra falar de outros amores.
Falam de muitos amores os amigos que se encontram.
São amigos que se esbarram quando falam de amores
E falando contam dos amores os amigos que se esbarram.
São amigos e se desencantam pra falar de outras paixões,
Falam de tantas paixões os amigos que se desencantam.
São amigos que se encantam a cada nova doida paixão,
Se encantam, se desencantam, amigos que se apaixonam.
                                     ***
Os amigos se encontram bem ali – no Bar Jangadeiro.
                                       VIII
Espelho dos milagres é a Bolha – salão de cegos, corpo de cristal que retine e
quebra em mil troços disformes – o Bar Jangadeiro é o salão de baile de todos
nós notívagos.
                                       ***
Fogo-fátuo do retilíneo sol-da-meia-noite, luz de farol que não ilumina,
anoitecer polar de veio horizontal. O jangadeiro ali aportou uma noite e ali
desaguou os feitiços e os feiticeiros.
                                       ***
Ai dos emigrados, ai dos emigrantes, ai dos vadios – eles são banquetes de
feras, parto das selvas de pedra.
                                       ***
Agora aporta no Bar Jangadeiro os marmanjos dos barcos sem leme, capitães
partem, partes marujos, desaportam a cada hora da nau sem rumo, o barco sem
vela, a lancha sem motor.
                                       ***
As moças acenam os lenços brancos e retornam abandonadas às camas
banhadas de sangue himenal e luares. O Bar Jangadeiro é o próprio Bateau
Ivre de corpo e alma, de carne e osso!
                                       ***
Proa de velhas sereias de madeira, virgem perdidas para sempre, marinheiros
destemidos de pele calejada e enrugada pelo sal e sol. Hoje o Bar Jangadeiro
nem é mais refúgio, nem mar de destroços.
                                       ***
Soçobradas vidas encalhadas nos corpos das mulheres e nos copos de chope
estraçalham corações, cabeças, almas mentes alheias. Hoje é mar de destroços,
refúgio de vidas despedaçadas, este Bar Jangadeiro...
                    IX
       Como disse Amado Nervo:
“Se num mar de brumas caminhamos,
          pelo menos – amemos!
        E talvez não seja em vão!”
                   ***
    Sim nós sabemos aonde vamos,
 mas – pelo sim, pelo não – amemos
       amemos num bar de brumas
     ainda que seja mesmo em vão!
                   ***
 Os véus da amizade abrem-se de vez
 como um leque de beijos e abraços,
      antena parabólica de carícias,
     mesmo que ainda seja em vão!
                   ***
      Enfim, não pode ser a última,
  a sala de espelhos, cegas aventuras
   às vezes perdem o rumo na Bolha
       e juram que não foi em vão!
                   ***
  Gente famosa – povinho anônimo,
       cara que desdenhou a fama,
    rosto que a fama largou de lado,
   gente que nasceu, amou, morreu.
                   ***
      – E jamais terá sido em vão!
                                        X
É tempo da pele se transformar em velame, tecido carcomido pelo tempo,
encarquilhado pelo peso da irresponsabilidade.
Velhas amizades, antigos namoros nunca desprezados, extravasar a vida sem
computar o correr das horas.
Ao escorrer do chope alourado, de extravagâncias desrespeitosas.
Ao sussurro dos gritos, escândalos acrobáticos caem por terra.
Os desprovidos de fé, de cútis sem brilho, de alma sem emoção, de olhos sem
rímel – são corações atirados por aí, esparsos pelo chão, desenhando risinhos
desprezíveis, de má fé, ódios enrustidos.
                          Jangadeiro, Bar Jangadeiro
                           Vago ponto escorregadiço
                           Desmarcando horizontes
                           As fronteiras escâncaras.
                          Bar Jangadeiro, Jangadeiro,
                            O chão só e indefinido
                           Visível a olhares iniciados
                          Linha macia como pelúcia.
                          Jangadeiro, Bar Jangadeiro,
                          Terra áspera, areia fronteira
                          Trespassam cotidianamente
                        Amantes perdições conhecidas.

Bar Jangadeiro, Ipanema,
Junho 1991 / fevereiro 1992